8.19.2008

17/08/2008 Carta Capital


Domingo, 17 de agosto de 2008
Pag. 26 SEU PAÍS
Dantas, o Supremo
Leandro Fortes e Felipe Coutinho

Foi comovedor. Acompanhado de um séqüito de advogados, inclusive de um que o atende full-time (leia aqui), Daniel Dantas voltou a incorporar na CPI dos Grampos o papel de perseguido. Durante horas, o banqueiro distribuiu acusações a esmo, sem provar nenhuma delas, contra a Polícia Federal, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e desafetos. Mentiu a respeito de fatos comprovados, distorceu a realidade. Como de costume, com o beneplácito dos parlamentares que se aglomeraram na CPI dos Grampos para “interrogá-lo”. Ante a costumeira bonomia dos congressistas, que repetiram o comportamento da bancada que ouviu o banqueiro na CPI dos Correios dois anos atrás, pergunta-se por que os advogados de Dantas recorreram ao Supremo Tribunal Federal em busca de um habeas corpus que permitisse ao cliente mentir e se calar. Não era preciso, a platéia estava disposta a garantir-lhe o palco. Réu em vários processos, acusado em outros tantos, o banqueiro foi reverenciado. Já o juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal de São Paulo, responsável por condenar alguns dos mais notórios criminosos de colarinho-branco do País, que depôs um dia antes, acabou pressionado pelos valentes deputados como se fosse um criminoso. Na quarta-feira 13, certo do ambiente de pura camaradagem que iria encontrar, o fundador do Opportunity chegou bem-disposto para depor na comissão. Até abriu mão do direito de silêncio concedido pelo STF para centrar fogo no governo, no delegado Protógenes Queiroz e em Paulo Lacerda, diretor da Abin.Manteve-se tão calmo ao longo do depoimento, falou tão baixo que, por duas vezes, o presidente da CPI, o deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), foi obrigado a solicitar aos técnicos que aumentassem o volume do microfone. O depoimento foi acompanhado, passo a passo, pelo advogado Nélio Machado, postado ao lado dele de forma a municiá-lo com informações e documentos organizados por sua equipe. No início da sessão, Machado chegou a responder a uma questão por Dantas, mas foi advertido pelo deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). Constrangido, Itagiba, idealizador da comissão parlamentar, reconheceu a proibição do expediente, prevista no regimento da Câmara, e não mais permitiu intervenções em voz alta do advogado.
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