6.22.2012

11/06/2012 08:57

Projeto pretende criar pensão para pessoas com sequelas da doença

O Brasil tem milhares de pessoas com sequelas físicas decorrentes da hanseníase. Enquanto boa parte da população acha que a doença nem existe mais, muitos brasileiros convivem com incapacidades graves. Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos anos, cerca de 7% dos pacientes já tinham sequelas graves instaladas quando receberam o diagnóstico. Isso significa 3 a 4 mil pessoas que se tornam deficientes físicas a cada ano. Duas causas explicam esse cenário: a demora no diagnóstico e a infraestrutura precária para atender os pacientes após o término da medicação. Mesmo após a cura, as sequelas físicas podem avançar se não houver cuidados adequados.

Esses dois problemas aconteceram com Damião Fernandes, que recebeu o diagnóstico aos 27 anos e já com atrofias nas duas mãos. “Passei por vários postos de saúde, cheguei a ficar 15 dias internado e me furaram todo. Mas o diagnóstico só veio depois”, relata Damião, que trabalhava como borracheiro e hoje precisa de ajuda para se vestir.
Arquivo/ TV Câmara
Saúde - Hanseníase - Damiao Fernandes - matéria 4
Damião Fernandes fará cirurgia para soltar os nervos das mãos.
“Quando recebi alta da fisioterapia, as dores pioraram e os dedos voltaram a atrofiar. Agora voltei à fisioterapia e devo fazer uma cirurgia para soltar os nervos das mãos”, explica.

Na Câmara, tramitam projetos de lei que pretendem conceder pensões para pessoas com sequelas da hanseníase. Um deles (PL 7256/10) é de autoria do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP).

“Lamentavelmente, a medicina brasileira está trabalhando com um equívoco, achando que não existe mais hanseníase, ou a lepra. Ela existe e continua deixando sequelas por falta de atendimento médico", lamenta o parlamentar. Faria de Sá acredita que, se aprovar a possibilidade de pensão para essas pessoas, o governo terá que "acordar para a realidade e criar programas para que as pessoas não tenham mais a hanseníase."

Os PLs 3085/08 e PL 3482/08, que também tratam do assunto, tramitam apensados. Os três projetos aguardam votação na Comissão de Finanças e Tributação.

Damião Fernandes concorda com a pensão, ressaltando que, hoje, ele depende de outras pessoas. “As pessoas se afastam de quem tem hanseníase, mesmo amigos e familiares. Se você precisa de um cuidado especial, tem que pagar”, afirma ele, que apresenta outro argumento para a pensão: os pacientes iriam se alimentar melhor e ficariam menos doentes.

Arquivo/ TV Câmara
Saúde - Hanseníase - Renata - matéria 4
Renata Rocha alerta para a demora no diagnóstico.
Demora no diagnóstico
A fisioterapeuta do Hospital Universitário de Brasília Renata Rocha, que atende Damião Fernandes e outros pacientes e tem mestrado sobre o tema, avalia que o diagnóstico tardio é o grande problema da hanseníase no Brasil. “Muitas vezes, o paciente procura o posto de saúde ou o próprio hospital e não é feito o diagnóstico correto. Esses pacientes ficam rodando de médico em médico, de hospital em hospital, às vezes tratam [como se fosse] uma outra doença e aí se instalam as sequelas, muitas vezes irreversíveis”, enfatiza Renata, que recebeu a reportagem enquanto atendia pacientes que tiveram ganhos significativos na melhoria de sequelas menos graves.

Danos irreversíveis
O Ministério da Saúde reconhece o problema. “O triste é que alguns já são diagnosticados com danos neurais irreversíveis, como pé caído, mãos em garra muito acentuadas e reabsorção de extremidades. O sistema de saúde brasileiro infelizmente ainda não assume na integralidade a parte de prevenção de incapacidades e de reabilitação”, admite Rosa Castália, coordenadora do Programa de Hanseníase do Ministério da Saúde. Segundo ela, estados e municípios precisam assumir a responsabilidade de oferecer atenção integral aos pacientes.
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